lena araujo

taxidermia sentimental

portanto disse-lhe que seria mais fácil dissecar o coração. o estofo a ser colocado era o de menos. que fosse palha e pegasse fogo, que fosse água e se adaptasse ao continente, que fosse areia e virasse ampulheta para calcular os dias que ainda lhe restavam. não importa! desde que se livrasse dos antigos sentimentos, mesmo que permanecesse oco, ainda seria um coração. a função básica de pulsar a vida estaria garantida. é preciso livrar-se do amor, pois este é corrosivo. ninguém morre das causas ditas “naturais” se nunca se apaixonou. quando o amor por fim deteriora o músculo cardíaco, a hemorragia interna é tamanha e tão abrupta que mal sobra tempo para um último suspiro.

por tal motivo eu, como médico cardiologista, recomendei-lhe a taxidermia sentimental. entreguei-lhe o cartão de um colega que cobraria um preço módico e fui para casa, pois sabia que aquelas pontadas que vinha sentindo no peito não significavam bom presságio. eu era o pneumologista fumante, o anestesista viciado, o cardiologista apaixonado. “era”, verbo muito bem conjugado.

porém nem sempre foi assim. já houve dias em que amei sem padecer, é claro. com moderação, a bebida não causa cirrose. aliás, não era amor. não sei definir ao certo. garanto, contudo, não ser complicado como parece. as relações humanas nunca são complexas como aparentam ser. a única coisa complexa até aqui é a minha fala, mas tentarei simplificar.

escrevi o texto em 18.07.2009. o rafael cerveglieri ilustrou em  07.05.2010.


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