lena araujo

maré cheia

a vida começou em pequenas caldeiras no oceano. milhões de combinações protéicas deram origem ao ser humano. e o ser humano deu origem aos deuses e aos pecados.

todo dia eu afogava meus pecados em sua própria origem. deitava com os pés virados para a água e observava o céu. pensava na origem do universo e de mim mesmo, até sentir as primeiras marolas alcançarem a sola dos meus pés. eram os meus erros que insistiam em voltar para mim. dali a pouco tornavam-se violentos e quebravam já na altura do tórax, agarrando-se à minha pele como podiam, desesperados em sobreviver. eu inspirava profundamente, como que aceitando a minha condição de ser errante, e levantava da areia antes que eu morresse em meus próprios pecados. se eles alcançassem a cabeça e os pensamentos, não restaria nada de mim. precisava mantê-los irracionais, em segurança à altura do peito, para evitar a culpa pelo que fiz.

escrito por volta de 27.04.2009.


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