lena araujo

partida

ele a pegou nos braços e a rodopiou em sua mente vazia. tirou-a para dançar pelo salão do desespero. em cada linha e em cada vírgula há um pouco deles mesmos. são crianças, a taquicardia é música, a página branca é malícia. a tristeza é a notícia, motivo para não dormir. dois corpos taciturnos se encontram no arrepio. bocas, nucas, dentes; dois olhares, vazios. ela era tristeza, ele era alegria. no meio da valsa trocavam, em perfeita sintonia. dois opostos atraídos pelo medo do destino. não falavam e não calavam, apertavam e machucavam, lanhavam e escoriavam o mesmo coração partido. não era hora de ir embora, desnecessário adeus. um suspiro e duas mãos acenando tão distantes. eram suficientes. o triste riso lhe gritava e nas mesmas palavras ela respondia: “adeus”. então adeus.

mande notícias no papel chanfrado, amarelado de memórias. escreva contando do passado que teima em não passar, em resposta às minhas cartas vis. engraçada a precariedade do nosso idioma, não é, meu bem? “eu te amo” significa tanto para quem não ama e tão pouco para quem padece de amor. justifica com tuas palavras como é possível que eu tenha um choro alegre e em seguida um riso triste. e como é possível que te amar seja o meu maior motivo para viver e maior ainda para morrer. justifica a insônia que o sono me causa quando o sono sonha contigo. justifique, anjo maligno, dê motivos.

eu te amo em todas as línguas e te odeio muito mais, por roubares um pedaço de mim toda vez que te vais. leva, leva contigo. coleciona e cola os meus pedaços, que eu monto as tuas peças por aqui.

em 04.04.2009.


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