o ponto de ônibus
acima de todos, a escuridão. o céu se desfazia em gordas e pesadas gotas que arrastavam tudo consigo ao chegar ao chão. no ponto de ônibus, as pessoas amontoadas como sardinha em lata. a senhora mais à frente era categórica: “é o fim do mundo! deus do céu!”. mais à esquerda, a jovem concordava irônica: “é o fim do mundo mesmo!”, e protegia como podia os cabelos alisados. um outro comentava que fim do mundo de verdade seria se o ônibus não passasse. o ônibus não passou.
da esquina veio um grito eufórico, atraindo os olhares curiosos. um senhor dançava nu. rodopiava na ponta dos pés, com passos de um balé mal ensaiado. batia os calcanhares no ar e cantava na chuva, ainda que a música não fosse “singin’ in the rain”. a reação dos que observavam do ponto de ônibus era a mais diversa possível, porém formavam uma plateia fiel. arredar pé dali seria difícil, afinal. as crostas de sujeira do inusitado dançarino desfaziam-se e eram levadas pela água. esta lavava também as impurezas que os espectadores eram incapazes de ver, as impurezas da alma. seu sorriso de poucos dentes refletia o brilho da lua. subitamente o clarão de um relâmpago no céu e a escuridão nas ruas. faltara luz.
o espetáculo acabara, não sem os aplausos da plateia e os pedidos de bis. os pedidos foram atendidos e só o que podia-se enxergar era o sorriso do mendigo, que agora rodopiava freneticamente no meio da rua. só quem não viu foi o motorista do ônibus que passou por ali. o brilho daqueles poucos dentes se apagou. o sangue daquele pouco corpo, a tempestade levou.
(para a aula de redação).
